IGREJA COM VISÃO MISSIONÁRIA III: Fazendo missões hoje
Pr. Carlos Magno V. da Silva
15/04/18
Texto: At 13.5-52
INTRODUÇÃO
Apresentamos no sábado pelo menos três motivos por que a igreja de Antioquia fez a diferença no quadro histórico do I século, usada por Deus para fazer a sua obra. Destacamos que ela era uma igreja democrática e acolhedora, pregava e ensinava a palavra de Deus e era uma igreja de oração e sensibilidade espiritual. Hoje pela manhã abordamos a atuação dessa igreja principalmente em sua relação com seus missionários e como devemos também fazer com aqueles que enviamos para realizar a obra de Deus.
A questão a que nos propomos nesta noite é: como fazer missões hoje? Como a igreja pode tornar-se relevante para atender as necessidades e anseios de nossa geração? Como comunicar o evangelho no mundo de hoje? Que filosofia de missões Paulo e Barnabé concebiam em sua prática missionária?
É possível destacar pelo menos três importantes fatores na prática de evangelismo e missões, tomando-se como base a experiência de Paulo e Barnabé em sua primeira viagem missionária.
1º - USANDO ESTRATÉGIAS ADEQUADAS PARA A EVANGELIZAÇÃO - V. 4
Não basta apenas alguém abrir a Bíblia e começar a falar. O fenômeno religioso hoje é bastante complexo. Há muitas religiões e milhares de denominações cristãs, muitas delas divergentes ou conflitantes. É preciso ter um ponto de partida com base em um ponto em comum. Ou melhor, é preciso ter alguma estratégia para comunicação eficaz da Palavra de Deus.
Antes de tudo, é necessário compreender o que significa "estratégia". Aurélio, em seu Novo Dicionário da Língua Portuguesa, apresenta quatro conceitos de "estratégia" (do gr. strategia):
1. Arte militar de planejar e executar movimentos e operações de tropas, navios e/ou aviões, visando a alcançar ou manter posições relativas e potenciais bélicos favoráveis a futuras ações táticas sobre determinados objetivos. 2. Arte militar de escolher onde, quando e com que travar um combate ou uma batalha. 3. Arte de aplicar os meios disponíveis com vista à consecução de objetivos específicos. 4. Arte de explorar condições favoráveis com o fim de alcançar objetivos específicos.
Interessa-nos aqui os pontos 3 e 4 nesse conceito de estratégia. Defendemos aqui o conceito de estratégia como a escolha das condições favoráveis para se alcançar os objetivos almejados.
Quando se fala em "estratégias", vem-nos à mente uma obra antiga, clássica, do V século a.C., intitulada A Arte da Guerra, do general Sun Tzu. Embora suas orientações tenham sido originalmente escritas para se ganhar uma guerra, ao longo do tempo esse manual de táticas militares tem sido aplicado em várias áreas, principalmente no campo da administração.
Sun Tzu (2007, p.24) chama a atenção para a grande necessidade de um rigoroso planejamento: "O general que vence muitas batalhas faz muitos planos em seu campo antes de cada combate. O general que perde uma batalha não faz mais que poucos planos antecipadamente. Portanto, planejar bastante leva à vitória; pouco planejamento, à derrota. Mais derrotado ainda será o que não fizer planejamento algum. Quando se está atento a esse ponto é possível prever quem está destinado a vencer ou a perder".
Calos Alberto Júlio (2005, p.18), um especialista em gestão estratégica, compreende que "estratégia é o caminho mais rápido para alcançar seus objetivos". "Estratégia envolve planejamento e execução. Vale resgatar o pensamento de Joel Baker, que no interessante filme de treinamento O enigma dos paradigmas nos dizia: 'Visão sem ação é só um sonho; ação sem visão é um passatempo; visão e ação juntas podem mudar o mundo'" (JÚLIO, 2005, p. 31).
Vemos igrejas sem nenhuma noção de planejamento estratégico. Ninguém tem noção da visão dela, de sua missão ou de seus valores. Não há organização nem planejamento de suas atividades. Tudo ocorre aleatoriamente ao sabor das urgências e emergências. Não quero aqui transformar as igrejas em empresas comerciais. Não. As igrejas são organizações religiosas, e, como tais, precisam de ser organizadas e suas ações planejadas.
A título de exemplificação, construímos a visão, missão e valores da futura Ibrene:
A Igreja Sede tem sua missão estabelecida em seu Estatuto. Em seu ART. 2º, consta:
- Pregar e ensinar o Evangelho do Senhor Jesus Cristo como escrito nas Escrituras do Velho e Novo Testamentos;
- Adorar e servir a Deus Pai, Filho e Espírito Santo em Espírito e Verdade;
- Cuidar da educação cristã em geral;
- Ajudar os necessitados e enfermos, especialmente os da sua agremiação e geralmente apoiar e ajudar tudo o que for para o bem da humanidade, segundo as posses da Igreja.
Quais as estratégias missionárias de Paulo e Barnabé? Poderíamos estender essa análise para todo o NT, a começar com o ministério de Jesus. Por que Jesus atravessou um mar encapelado só para salvar um endemoniado gadareno (Mc 5.1-20)? Por que o texto bíblico diz que ele deixou a rota normal dos judeus entre Judeia - Galileia, tendo que passar por Samaria, conforme Jo 4.4, só para salvar uma mulher samaritana? Por que Jesus não foi para a grande festa dos Tabernáculos no dia em que seus irmãos sugeriram, mas foi no dia mais propício para se expor e pregar publicamente no templo (Jo 7.14)? Naturalmente que essas escolhas não foram aleatórias. Faziam parte de seus planos, de seu propósito salvífico. Essas escolhas são o que chamamos de "estratégias".
Paulo e Barnabé, é claro, são também estrategistas. Eles partem de Antioquia em direção ao porto de Selêucia. Antioquia fica a 26 km do mar. Selêucia era a região portuária de Antioquia. Tomam uma embarcação até a ilha de Chipre e descem no atracadouro de Salamina, a 96 km de Selêucia. Chipre era uma ilha grande, com 223 km de comprimento e 96 km de largura. Era uma colônia romana, embora tenha sido colonizada pelos gregos. Chipre era famosa por suas minas de cobre e por sua indústria naval. A sede do governo ficava em Pafos, onde Paulo vai evangelizar o governador romano da ilha, chamado de procônsul Sérgio Paulo.
Há pelo menos três estratégias evangelísticas de Paulo e Barnabé nesse primeiro momento de sua jornada missionária:
1ª - Escolheram começar a missão evangelizadora na terra natal de Barnabé - na ilha de Chipre (At 4.36).
Lugar que Barnabé conhecia muito bem e provavelmente ainda tinha parentes por lá. "E, chegados a Salamina, anunciavam a palavra de Deus nas sinagogas dos judeus" (v. 5). Neves (1957, p. 183) afirma que "anunciar a Palavra de Deus é, na obra de evangelização, pregar a Cristo (At 9.20; 1 Co 2.2).
2ª - Buscavam um local com um ponto em comum para anunciar a Cristo - v. 5.
Em todas as cidades, onde eles chegavam, primeiro visitavam as sinagogas. Marshall (1982) comenta que essa estratégia tanto seguia o princípio de "primeiro ao judeu", ensinado por Cristo, como também fazia sentido prático ao estabelecer um ponto de contato para o evangelho. O Pr. Mário Neves (1971, p.183, grifo do autor) também concorda que visitar primeiro as sinagogas era uma estratégia comum: "A propaganda do Evangelho é mais bem realizada quando algo houver que seja comum entre o propagandista e os ouvintes, ou quando ele pode contar com o valioso auxílio do chamado elemento de ligação, que prepare o terreno despertando simpatias, faça a apresentação, pela sua influência, predisponha os indivíduos favoravelmente. É que entre os judeus e eles havia as Escrituras que todos conheciam e criam".
3ª - Aproveitavam para evangelizar tanto grupos como pessoas individualmente - v. 7
É fácil perceber que Paulo e Barnabé davam preferência à evangelização de pequenos e grandes grupos, sem menosprezar as pessoas individualmente que se interessassem por ouvir o Evangelho. Pregam nas sinagogas, mas quando soube que o procônsul Sérgio Paulo "procura muito ouvir a palavra de Deus", Paulo imediatamente dirige-se a sua casa, em Pafos, a sede do governo romano na ilha de Chipre. O texto bíblico (v. 12) diz que Sérgio "creu, maravilhado da doutrina do Senhor". Evangelismo, missões, não é nada mais que isso, irmãos: é ensinar a doutrina do Senhor às pessoas.
Hoje temos inúmeros recursos de como podemos evangelizar o nosso povo: seja através das plataformas de mídia (rádio, televisão, internet, etc.), ou seja pelos meios tradicionais, como distribuir folhetos, pregar em público, do discipulado bíblico nos lares. Defendemos que de todos os métodos modernos, o discipulado nos lares ainda é a melhor ferramenta de evangelismo, considerando a complexidade do fenômeno urbano contemporâneo.
A ideia do discipulado bíblico tornou-se bastante divulgado no Brasil a partir do início da década de 90. Estávamos no Rio, quando veio um grupo de discipuladores dos EUA para a Primeira Igreja Batista Bíblica do Rio de Janeiro e deu um treinamento aos pastores e líderes sobre o discipulado bíblico. Fizemos parte desse grupo e fomos um dos tradutores do Manual de Discipulado Bíblico. Quando voltamos para a Bahia, escrevemos dois livretos para uso nos Núcleos de Estudos Bíblicos nos Lares: o primeiro, intitulado: Discipulado Bíblico I: O plano de Deus para a salvação do homem, em coautoria com o Pr. Evaldo Moraes e o irmão Antônio Carlos Rodrigues. E o segundo, de nossa autoria, intitulado Como se tornar um cristão, de 2004. E agora estou escrevendo outro, intitulado: "Jesus, o Filho de Deus: Estudando o Evangelho de João", que se encontra no blog de nossa congregação.
Cada igreja precisa analisar os recursos que tem e implementar as estratégias que considerem mais adequadas ao contexto social e urbano em que a igreja está inserida.
2º - ESTANDO PREPARADOS ESPIRITUALMENTE PARA ENFRENTAR AS ADVERSIDADES - V. 8
Alguns dias atrás, ao chegar à Igreja do Parque Ipê, um senhor discutia com uma irmã que, depois, ficamos sabendo ser sua mãe. Ao começar a pregar, fui interrompido por essa irmã. Ela levou esse senhor à frente e pediu-me para orar por ele. Ele estava transtornado emocionalmente, terrivelmente abalado e oprimido por Satanás, com ódio violento no coração. Ele exclamava, vociferando e espumando: "Eu vou matar!" "Quando sair daqui vou matar!"
Pregar o Evangelho não consiste simplesmente em proferir uma palestra ou construir um belo discurso. É muito mais que isso: é entrar numa batalha espiritual. É afrontar as hostes do mal. A pregação bíblica, falar de Cristo como Senhor e Salvador, abala e afeta os interesses de Satanás (v. 10). Em decorrência disso, o crente não vem ao culto como espectador, não vem assistir a um culto, ele está inserido nessa batalha espiritual, mesmo quando esteja ouvindo a Palavra de Deus.
Quando Paulo chegou a Pafos e foi evangelizar o procônsul Sérgio Paulo, seu mago Elimas se opôs veemente à pregação de Paulo. Mas Paulo com a autoridade de Cristo repreende-o e o castiga com uma cegueira temporária. Champlin (1995) destaca "como o poder do evangelho era superior à1quele da magia pagã". Neves (1971, p. 185) também acentua quanto vale uma alma aos olhos do Senhor: "Por uma alma entraram em luta as duas maiores potências espirituais. De um lado ali estava o PRÍNCIPE DAS TREVAS representado por Elimas, e de outro, ali estava o REI DA GLÓRIA, dignamente representado pelo seu Embaixador Saulo". Exatamente por esse motivo que mais tarde Paulo vai dizer: "Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais" (Ef 6:12).
Curando um homem leso dos pés em Listra, a multidão acolheu Paulo e Barnabé como deuses. Foram aplaudidos e trouxeram-lhe oferendas, como touros e grinaldas, mas Paulo rejeitou rigorosamente esse culto pagão. O diabo tenta de todas as formas: pela perseguição ou pelos aplausos! Mas essa mesma multidão que o aplaudia, agora muda de atitude e "apedrejaram a Paulo e o arrastaram para fora da cidade, cuidando que estava morto" (Cap. 14.19). Mas o servo do Senhor, não se deixa abater! O que Paulo faz? Todo ensanguentado, com o rosto arrebentado pelas pedradas, cheio de hematomas, "levantou-se, e entrou na cidade, e no dia seguinte saiu com Barnabé para Derbe" (14.20).
3º - PREGANDO O EVANGELHO INTEGRALMENTE - V.17-41
De igual modo, pregar a Palavra de Deus fragmentária e topicamente não satisfaz aos ouvintes. É disso de que estamos necessitando, que a nossa geração necessita: de falar de Cristo integralmente. O tema de aniversário de nossa Congregação vai ser: Conta-me a história de Cristo (Hino 196). Quando Paulo e Barnabé chegam a Icônio, "detiveram-se, pois, muito tempo, falando ousadamente acerca do Senhor" (14.3). Era esse o conteúdo de suas pregações! Eles falavam de Jesus!
Encontramos um fragmento do sermão de Paulo pregado em Antioquia da Pisídia. Neves (1971) resume em quatro partes o sermão de Paulo:
1ª - Resumo da história de Israel, de Abraão até Davi - v. 17-24;
2ª - Apresentação de Jesus como o Messias prometido - v. 25-37;
3ª - A justificação pela fé - v. 38-39;
4ª - Uma solene advertência - v. 40-41.
A igreja bíblica deve criar uma expectativa em torno da pregação da Palavra de Deus. Os crentes devem convidar visitantes para ouvir a pregação genuína da Palavra de Deus e da salvação de Cristo. Temos visto em nosso país várias igrejas criando expectativas em torno de curas e milagres, em relacionamentos amorosos, na prosperidade material, mas essa não é a missão da igreja. Augusto Nicodemus disse certo dia o seguinte: O Evangelho oferece a salvação da alma humana através do sacrifício perfeito de Cristo; se você quer ter prosperidade material estude e trabalhe para se tornar rico.
Resumindo:
- Devemos ser uma igreja democrática e acolhedora, que prega e ensina a palavra de Deus, sendo uma igreja de oração e sensibilidade espiritual;
- Devemos repensar a qual a nossa filosofia de missões;
- Usar estratégias adequadas para a evangelização;
- Estar preparados espiritualmente para enfrentar as adversidades;
- Pregar o evangelho integralmente.
Que Deus nos abençoe!
REFERÊNCIAS
CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo: Atos e Romanos. Vol III. São Paulo: Candeia, 1995.
FERREIRA, Aurélio. Dicionário Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
JÚLIO, Carlos Alberto. A arte da estratégia: pense grande, comece pequeno e cresça rápido. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005.
MARSHALL, I. H. Atos: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1982.
NEVES, Mário. Atos dos apóstolos. 2. ed. São Pau